Moçambique volta ao centro das atenções financeiras internacionais depois de o Fundo Monetário Internacional confirmar que deverá enviar uma missão a Maputo nos próximos meses para avaliar a situação económica do país e as medidas que o governo pretende adotar para conter a crescente pressão sobre as contas públicas. A visita surge num momento delicado, marcado pelo aumento da dívida, dificuldades de financiamento e sinais claros de desgaste na capacidade do Estado de continuar a sustentar-se com recurso ao mercado interno.

O ponto que mais preocupa é o agravamento do endividamento público. Segundo dados reportados na notícia, a dívida pública de Moçambique aumentou 6,8% em 2025, atingindo 474 mil milhões de meticais, enquanto os adiantamentos de curto prazo do banco central ao governo dispararam 176,1%. Isso mostra que o Estado tem recorrido cada vez mais a soluções de emergência para manter o funcionamento financeiro, numa altura em que o acesso a financiamento externo continua limitado e mais caro.

Outro sinal de alerta vem do mercado financeiro. O spread da dívida soberana moçambicana chegou a 1.304 pontos-base, nível normalmente associado a forte stress financeiro e risco elevado. Na prática, isso significa que investidores veem Moçambique como um país mais arriscado para emprestar dinheiro, o que encarece ainda mais qualquer tentativa de captar recursos no exterior. A situação é agravada pelo impacto persistente do escândalo das dívidas ocultas de 2016, que continua a afetar a confiança internacional, e também pelos atrasos em grandes projetos de gás natural, considerados essenciais para reforçar receitas futuras.

O FMI já vinha a alertar que os bancos nacionais estão a chegar ao limite da sua capacidade de absorver dívida do Estado. Esse detalhe é especialmente sensível porque, nos últimos anos, o governo tem dependido cada vez mais do financiamento doméstico para cobrir défices e compromissos urgentes. Quando os bancos internos ficam excessivamente expostos à dívida pública, o risco deixa de ser apenas fiscal e passa também a atingir o sistema financeiro, reduzindo espaço para crédito à economia e aumentando a vulnerabilidade do país.

A futura missão do FMI terá, por isso, um peso político e económico relevante. Além de avaliar a situação atual, ela deverá servir para aprofundar as conversações sobre um possível novo programa com o Fundo, depois de o programa anterior ter terminado antes do previsto em abril de 2025. As negociações também devem continuar nas Reuniões da Primavera do FMI e do Banco Mundial, em abril de 2026, em Washington. O que está em causa não é apenas uma análise técnica, mas sim a tentativa de restaurar credibilidade, reorganizar prioridades orçamentais e abrir caminho para apoio externo mais estável.

No fundo, esta notícia mostra um país sob forte aperto financeiro, à procura de equilíbrio entre despesas públicas, dívida crescente e expectativas de recuperação. O FMI não está apenas a “visitar” Moçambique; está a voltar a olhar de perto para uma economia que enfrenta riscos reais de sustentabilidade da dívida, num momento em que o país ainda aposta que o gás natural, o apoio multilateral e reformas fiscais possam aliviar a pressão nos próximos anos. Essa ligação entre o reatamento do apoio internacional e a esperança de recuperação via LNG é sustentada pelas avaliações recentes do FMI e do Banco Mundial.